quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Lyra, do céu ao chão.


Nada na vida de Lyra a interessava mais do que o céu. Queria estudar as estrelas, os planetas e tudo o que estivesse lá em cima, até mesmo os aviões e passarinhos. Ela só não sabia toda a matemática que era preciso saber. Disseram a ela que nos sons existem muitos senos e cossenos, no ar e nas órbitas, muitas leis da física.
A menina se olhou no espelho e pensou que sua cabeça era muito pequena para tudo aquilo. Fixou-se em si mesma e percebeu que o mais perto que poderia chegar dos mistérios do universo, era talvez, ela própria.
Resolveu então estudar as pessoas, os seres humanos e suas mentes. Uma coisa era certa: ela nunca poderia ser tão grande que não pudesse caber nela mesma.
Ah,mas se Lyra descobrir que o número de conexões possíveis no cérebro é muito maior do que o número de átomos no universo, talvez desista das pessoas também! Ou quem sabe ela não começa a se sentir tão grande a ponto de enfrentar os seus sonhos?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Formidável casal musical.

Ela era bailarina, desde criança na ponta dos pés.

Ele era músico, compositor e violinista.

Ela queria a melodia perfeita para embalar seus passos.

Ele queria mais movimento no cantar.

Encontraram-se embaixo da lua e o encontro dos dois foi tão bonito quanto um musical.

Ela dançando como se o resto do mundo não existisse e ele tocando e cantando,como se ela o completasse.

O moço carregava todas as músicas do mundo nos bolsos e a moça todos os movimentos que sabia.

O beijo dos dois soou tão bonito quanto uma melodia.



sábado, 18 de julho de 2009

A ponte de cores e a garota à procura de Deus.



Não sabia bem o porquê, mas quando o dia era frio e o Sol se exibia elegante no céu, nem precisava chover para seus olhos esperarem as cores do arco-íris.

Sua avó costumava dizer que eles apareciam no céu como um sinal de Deus, algo para nos lembrar que a alegria dos dias de calor voltaria sempre.

Na sua imaginação de criança, entretanto, o arco-íris era uma espécie de ponte, que levava os corajosos até Deus... Ah, toda aquela beleza só poderia ser uma premissa do paraíso!

Era um alvoroço toda vez!Saía correndo feito maratonista profissional!

Embrenhava-se no mato e acabava por se perder algumas vezes, mas não desistia!Nunca desistia! Corria porque toda vez que um de seus pés afundava na terra úmida e a impulsionava para frente, sentia-se mais perto de qualquer coisa!Naquele desafio, qualquer passo dado era melhor do que ficar parado, e como se não fosse ilusão... Como se pudesse mesmo alcançá-lo... Colocava toda a sua velocidade nos pés.

Com os olhos sempre focados no arco, lutava contra o Tempo, o seu maior concorrente em todas as corridas que fazia. Nessa, por exemplo, ele estava sempre um passo à frente.

Enquanto corria, sentia que o Tempo, em uma estratégia desonesta pela liderança, ia apagando aos poucos o arco. Nunca conseguiria vencê-lo, ela sabia disso! A menina, porém, era a medalha de prata mais conformada e feliz do universo, tinha certeza! Quando finalmente o Tempo já levara todas as cores, a menina ofegante, com as mãos apoiadas nos joelhos, sentia que havia atingido o seu objetivo.

No fim do arco-íris, não encontrara nenhum semblante para admirar... Não havia nenhum velho barbado sentado em um trono de ouro também. Mas havia um coração pulsante e sangue quente correndo por todo o seu corpo... Havia bochechas rosadas e uma alegria tão intensa, que se pudesse escolher um nome... Chamaria, certamente, de algo parecido com Deus!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O moço que falava com passarinhos.


Toda noite, Eduardo chegava do trabalho cansado e precisando conversar...
Seus pais, sem tempo para ouvir suas divagações ao telefone, insistiam pra que ele ocupasse com alguns amigos, o espaço vazio do seu apartamento.
"Faz uma festa, meu filho... Traz seus amigos, arruma de conhecer umas moças bonitas!"... Sua mãe não entendia que os amigos da infância, agora já eram homens feitos, com suas famílias e empregos... Poucos eram os que tinham tempo de prosear, gastar horas e horas com conversa fiada, de papo para o ar! Também não entendia que as moças não apareciam num passe de mágica, como que num sopro! Ele até gostaria que elas viessem assim, pelo vento! De asas abertas... Voando em suas direção!

Até imaginou sua “amada alada”, entrando pela janela,linda, e repousando ao seu lado no colchão. Sentiu orgulho da idéia bonita que criara sobre o amor... Até que nesse mesmo cenário, viu uma estranha possibilidade invadir sua mente, tinha a impressão de que havia chegado à solução para os seus problemas...


Um Canário!

Como não pensara nisso antes?
Ele compraria um canário e seus dias teriam um pouco mais de cor... Foi exatamente o que ele fez: comprou um canário e o batizou de Agnes, gostou do nome tão rápido quanto do bichinho, os dois tinham a ver com pureza e otimismo... Tudo o que ele mais procurava!

Toda noite, Eduardo chegava do trabalho cansado e precisando conversar...
Agnes o esperava na varanda... Ouvia suas histórias e as transformava em melodias doces.

Eduardo era mais feliz agora... Seu coração sabia cantar.


( Foto por: Marcelle Cristhi)


segunda-feira, 15 de junho de 2009

Diálogo em movimento.


_Por que corremos tanto e sempre? _ gritou o homem mais alto do que as buzinas na rua.

_Por que somos paixão e a paixão é fluxo... Assim como os pensamentos e como os filmes! Centenas de quadros por segundo!_ falava e mantinha os olhos no caminho à sua frente, e pulava poças, e desviava de arbustos...

_Mas assim nem posso ver teus olhos! _ reclamou.

_Ora, a paixão é cega, não sabes?Tudo acontece tão rápido que não há nem tempo de reparar nos detalhes... Deixe isso para o amor!

_Para o amor? O que tem o amor?

_ O amor é fixo! Não tem a vibração das cidades! O gosto da aventura, do não saber... O amor está parado. Acomodou-se no sofá e de lá não sai mais! Esta reparando nos detalhes... Nas unhas mal pintadas, no pijama puído e na barba por fazer.

O sinal fechou, atravessaram uma rua, e outra, e outra, e mais uma... Até que ele parou.

Procurou sua própria voz em meio ao coro da multidão das ruas.

_Você tem idéias tristes sobre o amor. _ ele disse... Mas ela não ouviu, já estava muito longe... Pegou um atalho e se foi... Com a pressa determinada das paixões.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Sobre dançar sozinho.



Dançar sozinho é uma arte...

É o encontra-se consigo mesmo e não hesitar em se tirar para dançar.

É dar de ombros, esquecer... Mexer-se de qualquer forma, sem se preocupar com os pés (o de cima sempre será o seu.).

Pode ser valsa ou qualquer outra coisa.

De olhos fechados ou com uma das mãos para o alto , a sintonia é o que importa.

Com a alma e com a música...

Dançar sozinho não é vergonha, é auto-suficiência.

Dois passos para lá e para cá.

Há quem dance sozinho porque o melhor par está distante...

Há quem carregue seu par nos olhos.

Muitos dançam só porque gostam, outros dançam por dançar...

(Há quem entenda a valsa das almas.).

Bem aventurado é aquele que dança só. O que se despede do orgulho e confessa ao mundo:

“Estou sozinho... Estou comigo e estou feliz!”

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O colecionador de olhares.

Aprendeu a arte de decifrar olhares quando ainda era criança, desde então, esse se tornou o seu passatempo favorito. Muitas vezes chegou a deixar o futebol e as outras crianças de lado para se abrigar no silêncio e se afogar de tanto sentimento em algum olhar desconhecido.

Descobriu assim, que poderia haver muita tristeza escondida por trás do caimento de algumas pálpebras, e que a alegria e o amor quase sempre estão disputando algum espaço no cintilar das íris.

Depois de certo tempo, decifrar o que diziam alguns olhares se tornou mais fácil para ele do que compreender as palavras. As palavras podem mentir, enfeitando um sentimento ou escondendo. Já os olhares... Ah, os olhares não conseguem. Eles carregam o fardo da sinceridade... Fingir é uma tarefa difícil para eles.

Sabia muito bem quando um olhar dizia “Sim”, ou quando dizia “Não”. Alguns olhares eram um pouco mais frios, diziam “adeus” sem nenhuma pena. Outros eram especialistas em dizer aquelas coisas que só os olhares dizem e que talvez o idioma nunca consiga codificar... Mas no meio de todos esses, só havia um tipo de olhar que lhe despertava um interesse especial... Era aquele lacrimejante que,brilhando, quisesse dizer “Não vá!”. Nunca recebera um desses, talvez por isso ele nunca permanecesse.

O colecionador vagou por todo o mundo, descobrindo a história escondida por trás de cada piscar de olhos. Etiquetava e guardava com cuidado cada uma delas em sua lembrança.

Foi e voltou de tantos lugares que já não sabia mais onde procurar. Ainda lhe sobrava um espaço vazio na estante, mas com os pés e o coração já muito cansados, decidiu por interromper a sua busca.

E o mais engraçado disso tudo, é que ele não precisou ir muito longe para encontrar o que procurava. Estava lá o tempo todo... Bastava mergulhar no reflexo castanho do espelho.

Cadeias Entrelaçadas...

Infinitos Eus indecifráveis...

À sua frente estava o único olhar que ele jamais decifraria completamente.

O seu próprio, e enquanto vivesse teria que encará-lo.

Descobrir-se seria o desafio de cada manhã.

[Pelo menos agora ele se sentia em casa.]