sábado, 18 de julho de 2009

A ponte de cores e a garota à procura de Deus.



Não sabia bem o porquê, mas quando o dia era frio e o Sol se exibia elegante no céu, nem precisava chover para seus olhos esperarem as cores do arco-íris.

Sua avó costumava dizer que eles apareciam no céu como um sinal de Deus, algo para nos lembrar que a alegria dos dias de calor voltaria sempre.

Na sua imaginação de criança, entretanto, o arco-íris era uma espécie de ponte, que levava os corajosos até Deus... Ah, toda aquela beleza só poderia ser uma premissa do paraíso!

Era um alvoroço toda vez!Saía correndo feito maratonista profissional!

Embrenhava-se no mato e acabava por se perder algumas vezes, mas não desistia!Nunca desistia! Corria porque toda vez que um de seus pés afundava na terra úmida e a impulsionava para frente, sentia-se mais perto de qualquer coisa!Naquele desafio, qualquer passo dado era melhor do que ficar parado, e como se não fosse ilusão... Como se pudesse mesmo alcançá-lo... Colocava toda a sua velocidade nos pés.

Com os olhos sempre focados no arco, lutava contra o Tempo, o seu maior concorrente em todas as corridas que fazia. Nessa, por exemplo, ele estava sempre um passo à frente.

Enquanto corria, sentia que o Tempo, em uma estratégia desonesta pela liderança, ia apagando aos poucos o arco. Nunca conseguiria vencê-lo, ela sabia disso! A menina, porém, era a medalha de prata mais conformada e feliz do universo, tinha certeza! Quando finalmente o Tempo já levara todas as cores, a menina ofegante, com as mãos apoiadas nos joelhos, sentia que havia atingido o seu objetivo.

No fim do arco-íris, não encontrara nenhum semblante para admirar... Não havia nenhum velho barbado sentado em um trono de ouro também. Mas havia um coração pulsante e sangue quente correndo por todo o seu corpo... Havia bochechas rosadas e uma alegria tão intensa, que se pudesse escolher um nome... Chamaria, certamente, de algo parecido com Deus!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O moço que falava com passarinhos.


Toda noite, Eduardo chegava do trabalho cansado e precisando conversar...
Seus pais, sem tempo para ouvir suas divagações ao telefone, insistiam pra que ele ocupasse com alguns amigos, o espaço vazio do seu apartamento.
"Faz uma festa, meu filho... Traz seus amigos, arruma de conhecer umas moças bonitas!"... Sua mãe não entendia que os amigos da infância, agora já eram homens feitos, com suas famílias e empregos... Poucos eram os que tinham tempo de prosear, gastar horas e horas com conversa fiada, de papo para o ar! Também não entendia que as moças não apareciam num passe de mágica, como que num sopro! Ele até gostaria que elas viessem assim, pelo vento! De asas abertas... Voando em suas direção!

Até imaginou sua “amada alada”, entrando pela janela,linda, e repousando ao seu lado no colchão. Sentiu orgulho da idéia bonita que criara sobre o amor... Até que nesse mesmo cenário, viu uma estranha possibilidade invadir sua mente, tinha a impressão de que havia chegado à solução para os seus problemas...


Um Canário!

Como não pensara nisso antes?
Ele compraria um canário e seus dias teriam um pouco mais de cor... Foi exatamente o que ele fez: comprou um canário e o batizou de Agnes, gostou do nome tão rápido quanto do bichinho, os dois tinham a ver com pureza e otimismo... Tudo o que ele mais procurava!

Toda noite, Eduardo chegava do trabalho cansado e precisando conversar...
Agnes o esperava na varanda... Ouvia suas histórias e as transformava em melodias doces.

Eduardo era mais feliz agora... Seu coração sabia cantar.


( Foto por: Marcelle Cristhi)


segunda-feira, 15 de junho de 2009

Diálogo em movimento.


_Por que corremos tanto e sempre? _ gritou o homem mais alto do que as buzinas na rua.

_Por que somos paixão e a paixão é fluxo... Assim como os pensamentos e como os filmes! Centenas de quadros por segundo!_ falava e mantinha os olhos no caminho à sua frente, e pulava poças, e desviava de arbustos...

_Mas assim nem posso ver teus olhos! _ reclamou.

_Ora, a paixão é cega, não sabes?Tudo acontece tão rápido que não há nem tempo de reparar nos detalhes... Deixe isso para o amor!

_Para o amor? O que tem o amor?

_ O amor é fixo! Não tem a vibração das cidades! O gosto da aventura, do não saber... O amor está parado. Acomodou-se no sofá e de lá não sai mais! Esta reparando nos detalhes... Nas unhas mal pintadas, no pijama puído e na barba por fazer.

O sinal fechou, atravessaram uma rua, e outra, e outra, e mais uma... Até que ele parou.

Procurou sua própria voz em meio ao coro da multidão das ruas.

_Você tem idéias tristes sobre o amor. _ ele disse... Mas ela não ouviu, já estava muito longe... Pegou um atalho e se foi... Com a pressa determinada das paixões.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Sobre dançar sozinho.



Dançar sozinho é uma arte...

É o encontra-se consigo mesmo e não hesitar em se tirar para dançar.

É dar de ombros, esquecer... Mexer-se de qualquer forma, sem se preocupar com os pés (o de cima sempre será o seu.).

Pode ser valsa ou qualquer outra coisa.

De olhos fechados ou com uma das mãos para o alto , a sintonia é o que importa.

Com a alma e com a música...

Dançar sozinho não é vergonha, é auto-suficiência.

Dois passos para lá e para cá.

Há quem dance sozinho porque o melhor par está distante...

Há quem carregue seu par nos olhos.

Muitos dançam só porque gostam, outros dançam por dançar...

(Há quem entenda a valsa das almas.).

Bem aventurado é aquele que dança só. O que se despede do orgulho e confessa ao mundo:

“Estou sozinho... Estou comigo e estou feliz!”

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O colecionador de olhares.

Aprendeu a arte de decifrar olhares quando ainda era criança, desde então, esse se tornou o seu passatempo favorito. Muitas vezes chegou a deixar o futebol e as outras crianças de lado para se abrigar no silêncio e se afogar de tanto sentimento em algum olhar desconhecido.

Descobriu assim, que poderia haver muita tristeza escondida por trás do caimento de algumas pálpebras, e que a alegria e o amor quase sempre estão disputando algum espaço no cintilar das íris.

Depois de certo tempo, decifrar o que diziam alguns olhares se tornou mais fácil para ele do que compreender as palavras. As palavras podem mentir, enfeitando um sentimento ou escondendo. Já os olhares... Ah, os olhares não conseguem. Eles carregam o fardo da sinceridade... Fingir é uma tarefa difícil para eles.

Sabia muito bem quando um olhar dizia “Sim”, ou quando dizia “Não”. Alguns olhares eram um pouco mais frios, diziam “adeus” sem nenhuma pena. Outros eram especialistas em dizer aquelas coisas que só os olhares dizem e que talvez o idioma nunca consiga codificar... Mas no meio de todos esses, só havia um tipo de olhar que lhe despertava um interesse especial... Era aquele lacrimejante que,brilhando, quisesse dizer “Não vá!”. Nunca recebera um desses, talvez por isso ele nunca permanecesse.

O colecionador vagou por todo o mundo, descobrindo a história escondida por trás de cada piscar de olhos. Etiquetava e guardava com cuidado cada uma delas em sua lembrança.

Foi e voltou de tantos lugares que já não sabia mais onde procurar. Ainda lhe sobrava um espaço vazio na estante, mas com os pés e o coração já muito cansados, decidiu por interromper a sua busca.

E o mais engraçado disso tudo, é que ele não precisou ir muito longe para encontrar o que procurava. Estava lá o tempo todo... Bastava mergulhar no reflexo castanho do espelho.

Cadeias Entrelaçadas...

Infinitos Eus indecifráveis...

À sua frente estava o único olhar que ele jamais decifraria completamente.

O seu próprio, e enquanto vivesse teria que encará-lo.

Descobrir-se seria o desafio de cada manhã.

[Pelo menos agora ele se sentia em casa.]


quarta-feira, 8 de abril de 2009

Clara como a luz do sol.



Quando eu nasci, da ponta do lápis do meu narrador, as primeiras coisas que me foram acrescentadas foram parênteses. Breves parênteses que definiriam muitas coisas da minha história. Dentro deles uma só frase: “E ela carregará o Sol”.

De fato, me dizem sempre sobre uma certa luz, que vem do meu sorriso, ou dos meus olhos...Essa tal luz pode cegar, ou aquecer... Depende de quem olha e de como se olha.

O que eu realmente não gosto nessa história toda, é de quando preciso encarar os dias tristes... Já que o calor e a luz acabam sempre atraindo passarinhos, borboletas e pessoas alegres, loucas para gritar um sonoro: “Bom dia!”, o que faz com que eu tenha poucos segundos para viver intensamente a minha depressão, antes de abrir um largo e iluminado sorriso!

No dia mais triste de que me lembro, não foi diferente. Amanheci e levantei num pulo. O céu sorria num azul bem claro e nuvens gordinhas planavam no ar. A única coisa incomum era o silêncio... Um silêncio de aviso, que sem palavra alguma dizia: “Esse é um dia de notícias tristes”.

Neste dia, um velho amor morrera... Suicidara-se. E estava agora a sete palmos abaixo da minha alegria, e as minhas lágrimas de dor dançavam... Derramadas sobre os girassóis.

Talvez minha essência seja mesmo a alegria! Talvez melancolia não faça parte do meu contexto, ou quem sabe seja esse o peso de carregar toda a luz do mundo nas costas.

Se a história fosse escrita por mim, eu diria que a menina chamada Clara não merecia se apagar nem por um instante... Como o Sol não merece, como nenhuma outra estrela merece. E se é que somos todos nós “imagem e semelhança”, resta torcer para que seja essa também a idéia do meu _tão bem humorado_ narrador.

[ Já que falta no mundo quem tenha disposição para iluminar.]

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

the synchrony.



Aquela sinfonia já era comum aos meus ouvidos, centenas de vozes em uma espécie de coral nada harmônico. Eram risadas e gritos abafados, que percorriam o orfanato a todo tempo, exceto na hora de dormir, nessas horas a freira carrancuda exigia silêncio absoluto, e ai de quem reclamasse!

Mas nesse dia não, porque era domingo e domingo era o dia das risadas livres! Era quando o povo lá de fora vinha trazer-nos um pouco de alegria, mas também só nesse dia! Depois desmontavam o pula-pula, guardavam as fantasias e iam-se embora, com os bolsos cheios da alegria do ego e com os nossos sorrisos embaixo do braço!

Sentei-me silenciosa em um canto do jardim e lá fiquei, a devanear e a observar os menores, que ao contrário de mim, só pensavam em aproveitar todo aquele carnaval.

As coisas desconhecidas, muitas vezes até consideradas estranhas, sempre me despertaram o interesse, talvez porque no fundo eu me sentia como elas e achava que podia compreendê-las.

No meio da confusão de crianças, senti-me atraída a observar uma figura solitária, com o rosto coberto de tinta branca e um sorriso de ponta a ponta, pintado de um vermelho vivo (e triste). O Homem também me percebeu, caminhou ao meu encontro e sentou-se ao meu lado, dando uma distância considerável, talvez para que as suas piadas, tão coloridas, não esbarrassem em mim e ,de leve, abalassem a forte armadura que eu usava para me proteger de toda aquela alegria dos dias de domingo.

Nossos olhos se reconheceram de imediato! Éramos dois desconhecidos, mas com almas tão parecidas e corações tão abertos, que poderíamos nos entender completamente, com aquele simples e breve olhar.

Ainda assim o palhaço falou, recitou-me um poema, as mais belas palavras que já pude ouvir. Em troca, dei a ele o espaço dos meus braços, para um abraço sincero.

Éramos dois órfãos, eu de afeto e ele de reconhecimento.

Naquele dia eu ganhei um grande amigo, sem nem ao menos ter dito uma única palavra.