domingo, 20 de março de 2011

Sapatos apertados.



Meus pés doem.
Estou tentando esquecer, mas na menor distração acabo lembrando!
Já tentei pensar em futebol, mas sou pior nesse assunto do que eu imaginava.
Ah, deixe-me ver, acho que posso pensar na novela das oito.
Sandrinha amava Arnaldo que amava Paula que amava Pedro que amava Lúcia que não amava Augusto porque ele...
Tinha pés grandes! Droga! Isso me fez lembrar do meu par de pés esmagados.
Okay,okay. Confesso publicamente a mim mesma: "Não quero assumir que meus pés cresceram!"
Seria o mesmo que assumir que eu cresci e eu prometi a Peter PAN que nunca cresceria!
Isso seria quebrar uma promessa e "Meninos Perdidos nunca quebram promessas!" Pelo menos não na minha história.
O fato é que meus pés estão apertados aqui, mas por mais que meus calos gritem de dor e queimem feito supernova eu não vou descalçar esse maldito par de all star, nem por um milhão de pesos chilenos.
Tudo que preciso fazer é continuar andando e ignorar o fato de que a dor existe.
Funciona muito bem nos relacionamentos. Da última vez que perdi um amor doeu mais que calo nos dois pés!
E parecia que eu nunca ia esquecer até que eu decidisse seguir em frente. Foi o que eu fiz, segui em frente, toda a vida até chegar à rotatória.
Fiz a curva, passei por árvores de diferentes formas e tamanhos.
Vi a primavera, as flores, o verão e as chuvas. Atravessei ruas e ruínas.
Passei por portas, portões e portinholas.
Ei!Acabo de perceber que a dor passou!
Ai!Por alguns segundos.
Foi só falar que a maldita voltou!Que fisgada horrível!
As vezes eu faço coisas ruins para pessoas que eu amo. Acuso. Brigo. Desconfio.
Há um milhão de coisas que eu gostaria de esquecer para sempre. Um milhão de cenas que poderiam ser excluídas caso um dia alguém fizesse um filme sobre a minha vida.
São coisas que doem só de pensar, mas que estão lá. Esquecidas, porém vivas, esperando uma pequena distração para aparecerem e fazerem um estrago.
Lembranças ruins são como sapatos apertados: machucam as vezes,mas você acaba esquecendo se continuar andando.
O difícil é passar a vida inteira tolerando as fisgadas infinitas. Talvez eu devesse tirar os sapatos e assumir que meus pés cresceram.
Quem sabe poder então descansá-los no assoalho e deixar que essas feridas cicatrizassem.
Crescer pode não ser um problema. Peter Pan ficaria orgulhoso de saber que os verdadeiros adultos são só crianças descalças brincando de assumir responsabilidades.




Foto por Priscilla Gomes.