sexta-feira, 8 de maio de 2009

O colecionador de olhares.

Aprendeu a arte de decifrar olhares quando ainda era criança, desde então, esse se tornou o seu passatempo favorito. Muitas vezes chegou a deixar o futebol e as outras crianças de lado para se abrigar no silêncio e se afogar de tanto sentimento em algum olhar desconhecido.

Descobriu assim, que poderia haver muita tristeza escondida por trás do caimento de algumas pálpebras, e que a alegria e o amor quase sempre estão disputando algum espaço no cintilar das íris.

Depois de certo tempo, decifrar o que diziam alguns olhares se tornou mais fácil para ele do que compreender as palavras. As palavras podem mentir, enfeitando um sentimento ou escondendo. Já os olhares... Ah, os olhares não conseguem. Eles carregam o fardo da sinceridade... Fingir é uma tarefa difícil para eles.

Sabia muito bem quando um olhar dizia “Sim”, ou quando dizia “Não”. Alguns olhares eram um pouco mais frios, diziam “adeus” sem nenhuma pena. Outros eram especialistas em dizer aquelas coisas que só os olhares dizem e que talvez o idioma nunca consiga codificar... Mas no meio de todos esses, só havia um tipo de olhar que lhe despertava um interesse especial... Era aquele lacrimejante que,brilhando, quisesse dizer “Não vá!”. Nunca recebera um desses, talvez por isso ele nunca permanecesse.

O colecionador vagou por todo o mundo, descobrindo a história escondida por trás de cada piscar de olhos. Etiquetava e guardava com cuidado cada uma delas em sua lembrança.

Foi e voltou de tantos lugares que já não sabia mais onde procurar. Ainda lhe sobrava um espaço vazio na estante, mas com os pés e o coração já muito cansados, decidiu por interromper a sua busca.

E o mais engraçado disso tudo, é que ele não precisou ir muito longe para encontrar o que procurava. Estava lá o tempo todo... Bastava mergulhar no reflexo castanho do espelho.

Cadeias Entrelaçadas...

Infinitos Eus indecifráveis...

À sua frente estava o único olhar que ele jamais decifraria completamente.

O seu próprio, e enquanto vivesse teria que encará-lo.

Descobrir-se seria o desafio de cada manhã.

[Pelo menos agora ele se sentia em casa.]


7 Coelhos na cartola.:

  1. Muito interessante o final do texto. O intrumento de análise desse colecionador é os seus próprios olhos, o que torna a tarefa de colecionar os seus próprios olhares quase impossível.

    Faltou colocar a referencia para as obras completas do colecionador de olhares, que se chama Joaquim Maria Machado de Assis.

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  2. Você fala de mim, mas seus textos estão anos luz à frente dos meus. Esse foi simplesmente magnífico e tudo mais que possa ser dito em palavras, e mais tudo que não pode. Nada mais perfeito eu acredito encontrar por algum lugar. Lndo demais.

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  3. Perdão. Não quis acusá-la de plágio. Aliás, muito pelo contrário, seu texto é genial e muito bem escrito. Me expressei muito mal.

    A foto e o texto me lembraram o Machado, que é conhecido (dentre outras coisas) por descrever olhares muito agudamente.

    Um beijo,
    Vitor

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  4. Ai que lindo que lindo!

    Quisera eu ser especialista em olhares!

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  5. Anitha! Que saudade de passar aqui... não tenho tido muito tempo, nem de pensar na vida, nem nos poemas, mas ainda estou aqui e daqui não saio!

    O texto todo é muito bonito mas dou destaque para esse trecho: "Era aquele lacrimejante que, brilhando, quisesse dizer “Não vá!”. Nunca recebera um desses, talvez por isso ele nunca permanecesse.

    O colecionador vagou por todo o mundo, descobrindo a história escondida por trás de cada piscar de olhos."

    É demais isso!

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  6. Olá Anitha, pensei que havia deixado algum comentário, mas como não o vi, devo ter me enganado. Ando futucando essa internet como um louco as vezes, sempre em busca de coisas boas para se ver, ler. E seu texto sem sombra de dúvida, me deixo atônito. Muito bom minha querida, muito bom. Eu inclusive o indiquei ao E-blog. Você conhece o E-blog? Se não, passa lá: http://e-blogue.com/blogs/
    Abraços perfumados

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Sopre aqui suas palavras mágicas! :D