
Aquela sinfonia já era comum aos meus ouvidos, centenas de vozes em uma espécie de coral nada harmônico. Eram risadas e gritos abafados, que percorriam o orfanato a todo tempo, exceto na hora de dormir, nessas horas a freira carrancuda exigia silêncio absoluto, e ai de quem reclamasse!
Mas nesse dia não, porque era domingo e domingo era o dia das risadas livres! Era quando o povo lá de fora vinha trazer-nos um pouco de alegria, mas também só nesse dia! Depois desmontavam o pula-pula, guardavam as fantasias e iam-se embora, com os bolsos cheios da alegria do ego e com os nossos sorrisos embaixo do braço!
Sentei-me silenciosa em um canto do jardim e lá fiquei, a devanear e a observar os menores, que ao contrário de mim, só pensavam em aproveitar todo aquele carnaval.
As coisas desconhecidas, muitas vezes até consideradas estranhas, sempre me despertaram o interesse, talvez porque no fundo eu me sentia como elas e achava que podia compreendê-las.
No meio da confusão de crianças, senti-me atraída a observar uma figura solitária, com o rosto coberto de tinta branca e um sorriso de ponta a ponta, pintado de um vermelho vivo (e triste). O Homem também me percebeu, caminhou ao meu encontro e sentou-se ao meu lado, dando uma distância considerável, talvez para que as suas piadas, tão coloridas, não esbarrassem em mim e ,de leve, abalassem a forte armadura que eu usava para me proteger de toda aquela alegria dos dias de domingo.
Nossos olhos se reconheceram de imediato! Éramos dois desconhecidos, mas com almas tão parecidas e corações tão abertos, que poderíamos nos entender completamente, com aquele simples e breve olhar.
Ainda assim o palhaço falou, recitou-me um poema, as mais belas palavras que já pude ouvir. Em troca, dei a ele o espaço dos meus braços, para um abraço sincero.
Éramos dois órfãos, eu de afeto e ele de reconhecimento.
Naquele dia eu ganhei um grande amigo, sem nem ao menos ter dito uma única palavra.
gostei muito do texto, acredito plenamente que a amizade seja o encontro de almas irmãs.
ResponderExcluirP.S.:
posso linkar seu blog?
Anitha , obrigada pela sua visita e comentário! Adorei esse seu texto, as emoções que você descreveu..
ResponderExcluirBaci !
É como anunciar os devaneios
ResponderExcluirinternos com a inocência e a lucidez...
Tudo se passa em instantes e
quando a gente vê nos expressamos
com o silêncio, digno daqueles mais
expressivos e sinceros!
Bjosss
Minha querida,
ResponderExcluirAcho que é assim mesmo que se ganham os grandes amigos, na cumplicidade e na entrega de um olhar !!!!
Que lindo !!!!
Amei.
Obrigada pelas visitas no
http://eucaliptosnajanela.blogspot.com
Fico feliz, feliz, feliz, feliz... !!!
Beijo carinhoso,
Solange
Pequenas coisinhas para um olho grande, são uma imensidão para quem tem olhos apertadinhos. ;)
ResponderExcluirObrigada pelo comentário, moça!
Me dá um abraço, Anitha? Eu quero! hahahahha
ResponderExcluirQue coisa maravilhosa! "...poderíamos nos entender completamente, com aquele simples e breve olhar."
Beijo enorme!
Tentei comentar aqui há alguns dias, mas acho que não estava entrando...
ResponderExcluirEnfim, se ainda não for tarde para dizer: gostei muito! O Palhaço Pitanga, então, ficou encantado e deixou fugir uma lágrima que não sei se era de saudade ou felicidade.
Abraços e continua semeando emoções com teus olhinhos aguçados!
'Naquele dia eu ganhei um grande amigo, sem nem ao menos ter dito uma única palavra.'
ResponderExcluirmelhor não podia ter terminado :')
beijoo :*
Sabes que sou tua maior fã!
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